Os pedaços que quero deixar...

Talvez eu estivesse me cobrando demais, talvez eu só devesse levantar a cabeça, sacudir a poeira alongar o corpo e seguir em frente. Seguir a vida com essa nova perspectiva de que sou essa página em branco ou todas as páginas do mundo, de meio termo não fiz aula. Sem esperar ser feliz, mas aproveitando ao máximo a que me for dada. Talvez eu devesse tirar as correias que me prendem ao chão, desligar aquele sexto sentido que insistia em apitar quase como em um show de pirotecnia dentro de mim toda vez que alguém se aproximava da entrada do meu pobre coração engaiolado.
Precisava sair da defensiva, parar de me defender, desligar meu modo de combate para todo e qualquer sentimento que ameasse balançar minha "paz" inventada. Era difícil acreditar que depois de lutar tanto para se reerguer depois das más experiências, qualquer nova expectativa não fosse me derrubar outra vez. Eu queria mesmo fazer as pazes com o amor, juro, queria pega-lo no colo, coloca-lo para dormir e acaricia-lo. E quem sabe assim, acreditar que tudo ficará bem novamente. Talvez, me permitir ser otimista, positivo possa ajudar. 
Acontece que, pra quem chegou a pensar que a noite talvez não seja pra dormir e sim pra pensar, quem já possou noites em claro aos prantos em uma harmonia quase que sinfônica sentindo que sua vida é um looping sem fim da montanha russa sabe o que se passava dentro de mim. Sou o emaranhado de sempre, com algumas certezas, mas cheia de dúvidas, não sabia ao certo o que queria. 
Talvez por isso meu mundo estivesse interditado, com confusões, pedaços despedaçados, outros colados daquilo que sobrou de mim, daquilo que fui, que jamais serei de novo, do que queriam que eu fosse. Talvez por isso dividir o que eu sintia com alguém fosse tão difícil. Quem entenderia minhas loucuras matinais e estaria em concordância com tamanha imperfeição? 
O grande barato da mudança, é saber exatamente quem você era antes dela, fazer o antes e o depois. O ruim, é que, temos aquela velha mania de achar que a grama do vizinho é sempre mais verde. Acabamos persistindo que o antes era bem melhor à primeira vista. Sair da zona de conforto é torturante, e dá um medo desgraçado do arrependimento, mesmo que o lugar anterior já não fosse uma das sete maravilhas do mundo, seja como areia movediça.
Mudar é doloroso, incômodo, chato e bem angustiante. Ao mesmo tempo, necessário e absolutamente maravilhoso quando você entende que, cada vez que se muda nasce um pouco de novo e vê perspectivas diferentes sobre a vida.
Ainda sinto-me ludibriada, dopada depois de tantas quedas da vida. Mas talvez, apenas talvez, eu estivesse me sabotando de novo, tentando trocar aquelas ataduras que ainda restaram das ultimas cicatrizes. Quem sabe? 
Certo dia, pus-me a pensar quantos pedaços meus deixei espalhados por aí, o quanto da minha doçura ficou naquele sorriso involuntário que dei ao porteiro do prédio de um estranho. O quanto da minha disposição ficou nas corridas pela cidade que quase sempre eram diárias. Ou até mesmo minha bravura em andar por aí cantando em alto e claro som, ouvindo Cícero no fone de ouvido pelas ruas. Pois bem, não sei, ninguém sabe. É imensurável os pedaços de nós que andam espalhados pelo mundo.
Que atire a primeira pedra aquele que ri sem deixar um pouco da alegria de si no outro. Sofra sem deixar tristeza, dê um ombro amigo sem gentileza. 
Seguindo essa linha de pensamento quer saber? Quero mesmo deixar meus pedaços por aí, depois junta-los quem sabe. Remendar com os pedaços de outros. Quero mesmo é que todo mundo deixe seus pedaços. Pelas ruas, nos outros, nas casas dos outros. Na vida dos outros. 

Que em cada ônibus, ao final do dia, os passageiros deixem pedaços de alívio. Que em cada cama, no começo do dia, os trabalhadores deixem pedaços de sonhos. Que em cada moça desamparada, as "migas" deixem pedaços de solidariedade. Que em cada moço apaixonado, os amigos deixem pedaços de bom senso. Que em cada rodada de ceva, todos deixemos risos soltos. Que em cada discussão acalorada, todos deixemos pedaços de compreensão.
Porque ser humano é se doar, é se deixar ir e vir. É permitir ser, estar, amar, fazer. E antes de mais nada, é desapegar-se.
E sobre me deixar espalhada por aí, deixe estar! Continuo completa mesmo aos pedaços. Porque da minha nascente jorra amor e desapego. Renove-se. Permita-se.








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